Entre processos, memórias e histórias: a advocacia na trajetória do TST

  08/10/2026 - Ao longo de seus 80 anos, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) construiu uma trajetória marcada por transformações, decisões e pelas pessoas que ajudaram a escrever essa história. Entre elas, estão advogados e advogadas que, com suas experiências profissionais, mantêm uma relação contínua com o Tribunal e com a Justiça do Trabalho. Para muitos profissionais da advocacia, o TST faz parte da sua formação, dos desafios e dos  momentos marcantes da carreira.  Como forma de expressar essa relação, reunimos alguns depoimentos  que reforçam esse vínculo com o Tribunal e a importância da Justiça do Trabalho em suas trajetórias. Seguindo um novo caminho com o Direito do Trabalho Anne Floriane da Escóssia Lima já dedicou 33 anos ao Tribunal. Mesmo tendo atuado, principalmente, na área administrativa, manteve vivo o interesse pelo Direito do Trabalho.  Ao se aposentar em 2024, decidiu transformar esse interesse em um novo caminho profissional, “Foi muito desafiador, depois de tantos anos formada, realizar o exame da OAB. Então quando me aposentei, já comecei a atuar como advogada”. Para ela, a advocacia não significou um afastamento da Justiça do Trabalho, mas continuar fazendo parte dela sob outra perspectiva. “Hoje retorno ao TST em um novo papel, em uma atuação dinâmica e desafiadora”, destaca.  “As funções podem mudar e os caminhos profissionais podem seguir novas direções, como ocorreu comigo, mas o propósito permanece que é contribuir para uma Justiça do Trabalho cada vez mais humana, justa e efetiva.” Vocação familiar  A vocação para atuar na advocacia trabalhista já estava no DNA de Manuela Simões Falcão Alvim de Oliveira. Neta do ministro do TST, Luiz José Guimarães Falcão, e filha de pais que atuam na área jurídica, ela conta que cresceu convivendo com o Direito do Trabalho.  “Meu avô trouxe a Justiça do Trabalho para nossas vidas. Da mesma forma que  a gente aprendeu a falar e andar, nós aprendemos  sobre o Direito do Trabalho e, desde cedo, eu  soube que queria ser advogada”, detalha. Vida de estagiário  Aos 17 anos, ainda como estagiária de um escritório de advocacia, Manuela começou a frequentar o TST. Ela guarda na memória os tempos da antiga sede, quando a inscrição para a sustentação oral era feita presencialmente em totens e os estagiários precisavam chegar cedo para fazer o procedimento.  Há 20 anos na advocacia, ela comenta que participar presencialmente das sessões no Tribunal é uma experiência especial, mesmo com a possibilidade das sustentações virtuais. “Esse contato direto com os demais colegas, ministros, ministras e os servidores representa um grande diferencial  para o meu trabalho”, ressalta. “Somos sempre muito bem recebidos por todos, desde os profissionais que atuam nas sessões até os assessores e magistrados.” Ao recordar sua trajetória, Manuela ressalta o papel das ministras na ampliação da presença feminina no Tribunal. “Tivemos ministras que já se aposentaram e  que foram muito importantes para abrir as portas. As que continuam no exercício sempre têm um olhar mais cuidadoso  para  as nossas questões femininas, como forma de acolhimento”, exemplifica. Ao falar sobre sua relação com o Direito do Trabalho, Manuela  responde tendo o avô por inspiração. “Ele dizia que ser juiz bastava para ser feliz no universo. Hoje eu sou advogada trabalhista e isso me basta para ser feliz no universo.” Acompanhando de perto as transformações  Década de 1980. É nesse período que começa a trajetória de Nilton Correia na advocacia trabalhista. Ainda em atividade, o advogado acumula décadas de atuação e acompanhou de perto as 27 presidências do TST, incluindo a atual. Sua trajetória se confunde com parte da história do Tribunal, marcada pela convivência com diferentes gestões e pelas transformações da Justiça do Trabalho ao longo dos anos, que com certeza caberiam em um livro de memórias. Entre essas lembranças, está a transformação dos julgamentos. Ele acompanhou a implementação das chamadas ‘planilhas’ e que antes eram classificados como “lotes”, composto por  processos físicos empilhados e amarrados com cordas e que seriam julgados em clima de certo sigilo. “Quando cheguei à 1ª Turma, presidida pelo ministro Coqueijo Costa, fiquei aguardando outra audiência. Ele iria iniciar o julgamento dos chamados “lotes”, mas não queria testemunhas daquele momento. Ele pediu, com toda delicadeza, que a  secretária da Turma me explicasse a situação e solicitou que eu aguardasse em outro lugar. Sinalizei que havia entendido e sai”, relembra. Marcas físicas e na alma  Com tantos anos de experiência, são muitas as histórias e julgamentos que marcaram sua participação na Corte. Entre eles, um caso em especial que, apesar de retratar um trágico acidente de trabalho, mostra a existência de sentimentos dentro dos autos processuais. Uma comerciária pernambucana sofreu graves queimaduras em um incêndio dentro de um supermercado, acidente pelo qual a empresa foi responsabilizada. As lesões exigiram dezenas de cirurgias de pele, realizadas em etapas devido às fortes dores. A empresa foi condenada a arcar com as despesas, mas se recusou apesar dos laudos médicos que comprovaram a necessidade dos procedimentos. Além das marcas físicas, as queimaduras comprometeram a flexibilidade da pele e limitaram movimentos simples do corpo. Durante o julgamento do processo na  2ª Turma do TST, então presidida pelo ministro Vantuil Abdala, após a sustentação da empresa, Nilton  decidiu levar à tribuna uma dimensão simbólica da lesão. Sem direito ao “psiu” Ao abordar as consequências das queimaduras, ele relacionou a história da trabalhadora a um elemento marcante da cultura nordestina: o “psiu”, expressão associada ao carinho, à brincadeira e à paquera.  A referência deu ao julgamento um tom humanizado e emocionante, “Entre os elementos técnicos, decidi invocar o cantor nordestino Luís Gonzaga e argumentei que a empregada perdeu um dos principais direitos de existência, perdeu o direito ao ‘psiu’”, relembra. “Então cantei da tribuna os versos da canção. Venci, me emocionei e chorei junto com outros colegas que me abraçaram, inclusive a advogada da empresa.” O supermercado foi condenado a indenizar em R$ 1 milhão de reais a ex-empregada. "A todo mundo eu dou psiu (psiu, psiu, psiu); perguntando por meu bem (psiu, psiu, psiu); Tendo um coração vazio, Vivo assim a dar psiu, Sabiá, vem cá também" - Luís Gonzaga Terceira graduação como advogado   “Posso afirmar que a minha terceira ‘graduação’ foi no TST ao ouvir e participar de julgamentos, onde notáveis lições eram proferidas pelos ministros, ministras e colegas”, detalha ao lembrar como essa experiência marcou sua própria trajetória. “Eu jamais teria a concepção do que hoje é o Direito do Trabalho, os  direitos sociais, direitos fundamentais e o funcionamento do Judiciário se não fosse minha atuação no TST”. (Andrea Magalhães/JS)  
08/10/2026 (00:00)

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